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Projeto cearense capacita estudantes para Olimpíadas e bolsas de estudo

Projeto Cearense de Educação e preparação para olimpíadas. NA FOTO- Carlos Henrique, estudante. (Foto: Evilázio Bezerra/O POVO)

O projeto Cactus atua desde 2014 no interior do Ceará potencializando a educação de estudantes do ensino público e mudando a vida de muita gente. Anualmente, cerca de 300 jovens são treinados para participar de Olimpíadas pelo País com aulas promovidas pelo projeto, sempre aos sábados. Em 2018, foram 18 estudantes premiados na Olimpíada Brasileira de Robótica (OBR), 20 na Canguru Matemático sem Fronteiras, 41 na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP) e 54 na Olimpíada Brasileira de Astronomia (OBA).

Tudo começou quando David Araújo, ex-aluno do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e natural de Tauá, decidiu retribuir à cidade todo o conhecimento que havia adquirido. E foi assim que surgiu a ideia do Cactus. Na escola em que a mãe dava aula e com os próprios recursos, David elaborou a primeira olimpíada da cidade e as apostilas fornecidas aos estudantes.

Os bons resultados dos alunos nas olimpíadas nacionais após o projeto e o cuidado de David de procurar auxílio da Prefeitura, visitar cada sala de aula e conversar com as famílias, resultou na expansão do projeto para outros dois municípios cearenses, sendo organizados por jovens com uma trajetória muito parecida com a de David: estudantes que saíram de seus interiores por meio de oportunidades únicas de educação.

“Eu quero que as crianças do meu Estado tenham as mesmas oportunidades que eu tive, por isso eu sempre batalho por isso. Meu grande sonho é voltar para o Ceará e me dedicar 100% para transformar a educação. Infelizmente, o Estado às vezes vacila e não dá oportunidade a todos, e eu, como cidadão que tive essa oportunidade tenho que retribuir”, declara David, que hoje coordena uma startup em São Paulo.

David Araújo e Antonio Miguel, de Tauá, bolsista do Colégio Ari de Sá após aprovação no Primeira Chance

O projeto em Capistrano começou em 2016 e é tocado por Victor Hill, bolsista do Insper, em São Paulo. Já em Jijoca de Jericoacoara, o Cactus começou em 2018 e é organizado por Jefferson Vianna, atual Presidente do Cactus e bolsista da Nova School of Business and Economics (SBE), em Portugal.

Em cada um desses municípios, o projeto promove aulas com professores voluntários ou disponibilizados pelas Prefeituras parceiras voltadas para olimpíadas. O principal objetivo do Cactus é preparar os alunos para o processo seletivo da ONG Primeira Chance, composto por inscrição, prova e entrevista de pais e alunos na Capital cearense. A ONG seleciona alunos no interior para receber bolsa integral de estudo nos Colégios Ari de Sá e Farias Brito, na Capital, a partir do nono ano. Em 2018, dos 10 alunos selecionados pela ONG, cinco eram do Cactus. 

Este ano, além dos três principais voluntários de cada cidade, o Cactus conta com uma estrutura de diretorias responsáveis por áreas como pedagogia, conteúdo e marketing, além de parcerias com diferentes empresas que ajudam a financiar os custos dos projetos. O objetivo é conseguir a formalização em maio. As atividades já começaram a se expandir para outros dois municípios: Acaraú e Cruz.

Para Jefferson, o principal segredo do sucesso do Cactus é a motivação depositada em cada aluno. “O que eu percebi é que as aulas não dão medalhas para os alunos, elas potencializam o aluno, mas o que dá medalha é o aluno compreender que ele consegue fazer aquilo, compreender o significado daquilo. Se preparar mais, e eles não estão errados de, muitas vezes, não se dedicarem mais, porque ninguém nunca chegou para gente e explicou por que que aquilo valia muito a pena. Eles nunca tiveram o exemplo de alguém conseguindo aquilo. Então o que a gente fez bastante foi dar esses exemplos. Eles olham para os colegas que conseguem as coisas e veem que eles podem também”, acredita Jefferson.

Aluno de ouro

Carlos Henrique Sampaio foi o primeiro em Jijoca a ser selecionado pela ONG Primeira Chance, em 2018. Hoje, aos 14 anos, ele cursa o 9º ano no Colégio Ari de Sá. Sempre incentivado pela mãe, que também é professora, Carlos cresceu com afinidade para os estudos. Ano passado, quando o Cactus chegou a Jijoca, ele participou da Olimpíada Brasileira de Astronomia (OBA), Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP), Olimpíada Brasileira de Informática (OBI), Olimpíada Brasileira de Física (OBF), Olimpíada Canguru de Matemática, Olimpíada Brasileira de Robótica (OBR) e Olimpíada Cactus de Ciências (OCC), conquistando ouro na OBA, prata na OCC e bronze na OBMEP.

Carlos Henrique com suas medalhas

Em Fortaleza, ele mora em um pensionato, longe da mãe. Apesar da grande mudança, Carlos não se abate. “A mudança não foi fácil, até porque eu tive que me distanciar da minha família e aqui eu tive que começar uma nova vida praticamente. Quando a gente para pra pensar em como essa mudança é grande, dá um certo desânimo, mas aí eu lembro do que eu já fiz para chegar aqui então eu não podia desistir. Nunca é fácil sair de casa, ainda mais com 14 anos, a minha mãe ficou bem apreensiva e eu também, mas eu estou conseguindo me adaptar bem”, garante, e completa: “Eu não imaginava que fosse chegar onde eu estou”.

Para além do Cactus

Técnico pedagógico na Secretaria de Educação de Jijoca e coordenador municipal do projeto Cactus, Thales reconhece que as escolas do município muitas vezes não têm estrutura e recursos suficientes para lidar com diferentes níveis de alunos. “Temos alunos fenomenais que infelizmente, não conseguem evoluir cada vez mais com o ensino da escola convencional uma vez que os professores têm em uma sala com 30 alunos, alunos que têm inúmeras dificuldades com vários conteúdos. A iniciativa foi um espécie de empurrãozinho para a Prefeitura começar a investir cada vez mais em projetos paralelos de ensino. Aos sábados, temos uma espécie de pólo educacional com aulas de robótica, inglês e do Cactus, além de aulas do Projeto Alcance para alunos e comunidade em geral que pretende ingressar na faculdade. Sabemos que eles têm gostos diferentes e aos poucos estamos tentando atender a todos”, esclarece Thales.

A recompensa de quem oferece

Alícia Mourão, 21, estudante de Medicina da UFC, atuou como professora voluntária ano passado em Jijoca. Apesar de passar mais tempo viajando do que em sala de aula (12 horas de ida e volta ao município contra apenas 4 horas sendo professora) a experiência foi tão recompensadora que ela não conseguiu nem sentir a diferença de tempo. “A maioria de nós éramos bolsistas estudando em escola pequena, escola pública e a gente se juntou para retribuir”, conta.

Aulas

Em cada cidade, são formadas duas turmas de cerca de 40 alunos: nível I, com estudantes do sexto e do sétimo ano, e nível II, com estudantes do oitavo e nono ano. Em 2018, Jijoca, os alunos foram selecionados por indicação das escolas.

OCC

Só em Jijoca, ano passado, cerca de 1.500 alunos de oito escolas participaram da OCC.

Olimpíadas

Canguru Matemático sem Fronteiras, Olimpíada Brasileira de Astronomia (OBA), Olimpíada Brasileira de Robótica (OBR) e a Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP), a maior do Brasil.

Jijoca

70 alunos de todas as 8 escolas de ensino fundamental II do município

Ao final de 2018 foram mais de 100 anos premiados nas 9 olimpíadas realizadas durante o ano. Todos os alunos, pertencentes ao Cactos ou não, podem participar das olimpíadas.

@projeto_cactus